Até 1970, Faculdades escolhiam suas datas para as provas
que aplicariam e, muitas, escolhendo os mesmos dias e horas, impossibilitavam
ao aluno o concorrer a mais de uma vaga no ensino superior.
Em 1970 houve
mudanças especiais no sistema e, com isso, o vestibular se tornou unificado e
as pessoas puderam concorrer com a mesma nota a várias instituições. A mudança
no sistema possibilitara a alunos do ensino médio, então segundo grau,
concorrerem às mesmas vagas, ao mesmo tempo, com as mesmas provas.
Em um subúrbio
do Rio de Janeiro, no mês de dezembro, alunos celebravam felizes o fim de mais
uma etapa em suas vidas.
O final do
ensino médio, nas periferias do grande Rio de Janeiro significava, para muitas
famílias, o máximo de instrução que possibilitariam a seus filhos. Faculdades
não faziam parte de seus planos. Para muitas, o final de dezembro e início de
janeiro significava ver o filho ou filha entrar na fila à espera de uma vaga para
trabalhar. Supermercados, lojas, pequenas empresas prestadoras de serviço se
viam recebendo inúmeros pedidos, pequenos currículos, e se viam com uma grande
oferta de mão de obra inexperiente e de baixo custo a que poderiam explorar.
Pais aflitos esperavam ver seus filhos colocados e já contribuindo com a renda da
família.
Em uma dessas
famílias, o esperado não era diferente. Uma de suas filhas terminara o segundo
grau, e as expectativas recaiam sobre as vagas da Casa da Banha (um supermercado)
ou de uma grande loja que, geralmente, abrigava os novatos que se formavam, proporcionando-lhes
períodos de experiência que, para muitos, se tornaram anos a fio de trabalho.
A família não admitia
o fato de a filha sonhar em continuar seus estudos. Isso era como que desprezar
as necessidades e possibilidades. Já contavam com a ajuda de uma filha que interrompera
o segundo ano do segundo grau para trabalhar. Agora esperavam mais essa ajuda.
Mas, dentro do coração da filha, algo maior acontecia. Um desejo muito grande
de continuar seus estudos.
Durante os
anos de estudo, ela aprendera a enfrentar dificuldades como se fossem algo
normal a ser vivido. Geralmente, caminhava seis quilômetros para chegar ao
colégio, e mais seis de volta para casa ao final das aulas. Não possuía vários
cadernos, como as colegas possuíam. Mas sempre dava um jeito de estudar lendo no
caderno de uma colega que era sua companhia diária nas idas e vindas, e que,
muito caprichosa, mantinha as matérias, de cada disciplina, organizadas. E dava
certo. Sempre conseguia boas notas. Apesar de não gostar de números, conseguiu
não ser reprovada nem mesmo na Matemática, o terror do primeiro ano científico.
Ao final desse primeiro ano, o Colégio ofereceu uma escolha – quem quisesse
sair do científico, que priorizava o ensino das Exatas, poderia optar pelo
Clássico, que priorizava pelo ensino de Humanas e línguas estrangeiras. E ela
escolheu o Clássico. Terminou seu segundo grau tendo vivido experiências com
inglês, francês, espanhol, latim, sociologia, história, filosofia, artes, que
mais tarde se mostraram úteis para o seu dia a dia.
Havia uma
chama que não se apagara em seu coração e ela resolveu mantê-la acesa. Não por
rebeldia – muito de ingenuidade ainda dominava sua mente naquela época – mas por
entender que era possível tentar.
Resolvida,
mais uma vez contou com sua amiga – iam estudar para o concurso! Elas viviam as
mesmas expectativas e iam se ajudar.
Mas algo as impedia: o dinheiro para a inscrição.
Naqueles dias,
seu coração já palpitava diferente, e sonhava com um rapaz que a namorava, mas
estava longe, viajando pelas trilhas da “estrada amazônica”, vivendo o sonho do
pai, por terras no INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
Não era o sonho dele, e, lá, ele se lembrara da menina que esperava por ele e
estudava dia e noite para as provas. E tomou uma atitude: enviou o dinheiro da
inscrição para ela.
Etapa
resolvida para ela e sua amiga que também conseguira o dinheiro. Era hora da
inscrição.
Na fila, à
espera da vez, perceberam algo: o sonho era se inscrever para a vaga da turma
de inglês, mas havia cinco filas só para os candidatos às vagas naquela
disciplina. Era hora de perceber a realidade – não poderiam concorrer com
aquelas pessoas. E tomaram uma decisão: escolher a menor fila. E se inscreveram
na turma de espanhol.
Com mais uma etapa
resolvida, agora era dedicar-se e esperar o momento do concurso. Porém, mais
uma coisa precisava ser resolvida: eram amigas, de fato, mas com crenças
diferentes. E se tornou necessária uma escolha – à amiga, devota de Cosme e
Damião, ela fez um pedido: não iam pedir a nenhum santo, a ninguém mais, além
de Jesus, para que as ajudasse a passar. E assim fizeram. O líder religioso de
sua família soube da inscrição e a chamou para um conselho. Disse-lhe, com
muita clareza: Soube de sua inscrição para a Universidade Federal. Vou lhe dizer
uma coisa: ao sair o resultado, não fique triste, desanimada. Lá não é para
qualquer um. Lá é para gênios!
Ela ouviu, mas
não desanimou. No porão de sua casa, se reuniam e estudavam. Pouco tempo
tiveram, mas muito empenho.
E o dia chegou.
Um dia
ensolarado, bem quente como são os dias do calor do Rio de Janeiro. Local das
provas: Maracanã. Uma mudança especial no vestibular de 1970 foi o fato de se
usar os estádios de futebol como local de provas. Sob sol ou chuva, e sob o
olhar vigilante de fiscais, haviam de responder suas questões. E lá estavam
elas. Cada uma na arquibancada determinada, felizes e amedrontadas ao mesmo
tempo, realizando o tão esperado sonho. E as provas foram entregues. Língua
Portuguesa e Latim foram fundamentais nas avaliações da Universidade Estadual e
da Federal do Rio de Janeiro. E o Clássico mostrou sua utilidade para elas. Um dicionário
de latim nas mãos, um texto de Virgílio para tradução, uma redação, e outras
questões a serem respondidas. E terminaram suas provas, e as entregaram aos
fiscais. Estava lançada a sorte, como alguns diriam. Era esperar o resultado.
Não demorou
muito. Dias depois, pelas sete horas da manhã, no postigo da porta de sua casa,
alguém batia e chamava. Era sua amiga, com um jornal nas mãos. Trazia as notas
e nomes dos aprovados. Para a turma de espanhol, a Universidade Federal do Rio
de Janeiro havia disponibilizado quinze vagas. Sua amiga era o número dezesseis e o seu
número era o dezessete. Não haviam sido classificadas para as vagas disponíveis
..., mas, Deus ouvira suas orações. Não eram gênios, mas eram filhas de um Deus
que ama e cuida dos seus. Em uma observação, no final da lista, estava o
milagre; o Reitor havia feito exceção para alguns cursos, e entre eles o de
espanhol, sendo classificados os 30 primeiros candidatos. Estavam na
Universidade Federal do Rio de janeiro! Oh Glória! Era matricular e seguir o
curso! E o fizeram! Abençoadas!
Salmo 37.4 e 5
nos diz: ‘Agrada-te do Senhor e ele satisfará os desejos de teu coração.
Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele tudo fará.’
I Coríntios tem
um texto que nos ajuda a compreender essas bençãos, milagres assim.
‘Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.’ 1 Coríntios 1:27-29
Um fraterno
abraço.
Cineide.
